sábado, 22 de novembro de 2008

A beleza da Festa de Babette










Karen Blixen, dinamarquesa de nascimento, casou-se com um barão e passou os anos de 1914-31 administrando uma plantação de café na África Britânica, no Leste (seu livro Out of Africa fala daqueles anos).

Depois de um divórcio, ela voltou à Dinamarca e começou a escrever em inglês com o pseudônimo Isak Dinesen. Uma de suas histórias, " A festa de Babette", tornou-se um clássico respeitado depois de ser transformado em filme na década de 80.

Dinesen situou sua história na Noruega, mas os cineastas dinamarqueses mudaram o local para uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha.

Neste ambiente triste, um ministro de barbas brancas liderava um grupo de crentes de uma austera seita luterana. Os poucos prazeres mundanos que pudessem tentar um camponês em Norre Vosburg eram condenados por essa seita.

Todos usavam roupas pretas. Sua alimentação consistia em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um borrifo de cerveja. Aos sábados, o grupo se reunia e cantava hinos a respeito de "Jerusalém, meu lar feliz, nome sempre querido para mim".

Eles haviam direcionado suas bússolas para a Nova Jerusalém, e a vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá. O velho pastor, um viúvo, tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton.

Os habitantes da vila costumavam ir à igreja apenas para deliciar seus olhos olhando para as duas, cuja beleza não podia ser ocultada, apesar dos grandes esforços das duas irmãs.

Martine encantou um jovem oficial da cavalaria. Quando ela, obstinadamente, resistiu às suas investidas - afinal, quem cuidaria de seu velho pai? - ele foi embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.

Philippa, além de ser muito bonita, também possuía uma voz maravilhosa. Quando ela cantava a respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir.
E aconteceu que Philippa conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin, que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde.
Enquanto caminhava pelos poeirentos caminhos de uma cidade atrasada, Papin ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da Grand Opera de Paris. "Deixe-me ensiná-la a cantar de maneira certa", ele insistiu com Philippa, "e toda a França vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e voce vai andar de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais".
Lisonjeada, Philippa consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas.
Cantar a respeito do amor fê-la ficar nervosa, a agitação dentro dela a pertubou mais ainda e, quando uma ária de Don Giovanni acabou com ela sendo enlaçada pelos braços de Papin, os lábios dele roçando os seus, ela soube, sem a menor sombra de dúvida, que estes novos prazeres tinham de ser abandonados.

Seu pai escreveu um bilhete desisitindo de todas as futuras lições, e Achille Papin voltou a Paris, tão triste como se tivesse perdido um bilhete de loteria premiado.

Quinze anos se passaram , e muita coisa mudou na vila. As duas irmãs, agora solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai, mas, sem a sua dura liderança, a seita estilhaçou-se.

Um irmão tinha queixas de outro por causa de algum negócio, espalharam-se boatos de que havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo duas pessoas da comunidade, duas velhas senhoras não se falavam há uma década.

Embora a seita ainda se reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo.

Apesar de todos esses problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis, organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.

Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta. Quando a abriram, uma mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que não falava dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin. Ao ver aquele nome Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de apresentação. O nome da mulher era Babette.

Ela habia perdido o marido e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir, e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia lhe demonstrasse misericórdia.

"Babette sabe cozinhar", dizia a carta. As irmãs não tinham dinheiro para pagar Babette e, antes de mais nada, não sabiam se deviam ter uma empregada. Desconfiaram de sua arte - os franceses não comiam cavalos e rãs? Mas, por meio de gestos e rogos, Babette amoleceu o coração delas. Ela poderia fazer alguns serviços em troca de quarto e comida.

Durante os doze anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs. A primeira vez que Martine mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as tarefas domésticas. Até ajudava nos cultos de domingo. Todos tinham de concordar que Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.

Uma vez que Babette nunca se referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira carta. Babette a leu, viu as irmãs de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa maravilhosa lhe havia acontecido:

Todos os anos um amigo em Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu bilhete fora premiado. Dez mil francos!

As irmãs apertaram a mão de Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam que logo ela iria embora. A sorte grande de Babette na loteria coincidiu como o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai.

Babette, dizendo que em 12 anos nunca tinha pedido nada, disse: "Agora, porém, tenho um pedido: Gostaria de preparar uma refeição para o culto de aniversário. Quero cozinhar uma verdadeira refeição francesa".

Embora as irmãs tivessem sérias dúvidas a respeito dessa idéia, não tinham como discordar, já que era o único pedido feito por Babette em todos os anos de serviços prestados às irmãs.

Quando o dinheiro chegou da França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes de Norre Vosburg foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando provisões para a cozinha de Babette.
Trabalhadores empurravam carrinhos de mão cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe - champanhe! - e vinho logo se seguiram. A cabeça inteira de uma vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas do mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça de um lado para o outro - tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora firmemente dirigida por Babette.
Martine e Phlippa, apavoradas com os preparativos que mais pareciam coisa de bruxa, explicavam a embaraçosa situação aos membros da seita, agora apenas onze pessoas, velhas e grisalhas. E todas concordavam com elas.

Depois de alguma discussão decidiram que comeriam a refeição francesa, mas não fariam nenhum comentário para que não fossem interpretados como pecadores, pois " Línguas haviam sido feitas para louvor e ação de graças, e não para satisfazer gostos exóticos. "

Nevava no dia 15 de dezembro, o dia do jantar, iluminando a aldeia obscura com um brilho branco. As irmãs ficaram satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora Loewenhielm, de noventa anos de idade, estaria acompanhada de seu sobrinho, o oficial de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no palácio real. Babette havia conseguido emprestadas louças e cristais suficientes, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas. A mesa estava linda.
Quando a refeição começou todos os convidados da vila lembraram do pacto e ficaram mudos, como tartarugas em volta de um lago. Apenas o general , que não sabia de nada, comentou a comida e a bebida."Amontillado", ele exclamou quando levantou o primeiro copo. "É o mais fino Amontillado que já provei."

Quando experimentou a primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga, mas não acreditou que pudessem ter encontrado uma tartaruga no litoral da Dinamarca.

"Incrível", disse o general quando experimentou o próximo prato. "É Blinis Demidoff!"
Todos os outros convivas, as faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas maravilhas sem nenhuma expressão ou comentários.

Quando o general , entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette ordenou ao seu ajudante de cozinha que mantivesse o copo do general cheio o tempo todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.


Embora ninguém mais falasse a respeito da comida ou da bebida gradualmente o banquete operou um efeito mágico sobre os habitantes da aldeia: seu sangue esquentou, suas línguas se soltaram. Eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava vivo e do Natal em que a baía congelou. O irmão que havia enganado o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma rixa acabaram conversando. Uma mulher arrotou, e o irmão ao seu lado disse sem pensar: "Aleluia!"

O general, entretanto, não conseguia falar de nada além da comida. Quando o ajudante da cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa, no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma mulher como chefe-de-cozinha.

Cheio de vinho, o apetite satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso. "A misericórdia e a verdade, meus amigos, se encontraram", ele começou. "A justiça e a bem-aventurança se beijaram." E, então, o general fez uma pausa, "pois - conforme comenta Isak Dinesen - ele tinha o hábito de fazer os seus discursos com cuidado, consciente do seu propósito, mas aqui, no meio da simples congregação do pastor, foi como se toda a figura do General Loewenhielm, com seu peito coberto de condecorações, fosse porta-voz de uma mensagem que tinha de ser transmitida".

"Embora os irmãos e as irmãs da seita não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento suas vãs ilusões se dissolveram diante de seus olhos como fumaça, e eles viram o mundo como ele realmente era."
O pequeno grupo se desfez e saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de estrelas.

A "Festa de Babette"termina com duas cenas: lá fora, os velhos se dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos da fé. É uma cena de comunhão: a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente. Eles sentiram, acrescenta Isak Dinesen, "como se realmente tivessem os seus pecados lavados e tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam brincadeiras como cordeirinhos travessos".

A cena final acontece lá dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados, cascas de vegetais e garrafas vazias.

Babette senta-se no meio da bagunça, parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes. Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia falado com Babette a respeito do jantar. - Foi um jantar e tanto, Babette - Martine diz para começar.

Babette parece distante. Depois de um minuto ela responde: - Eu era a cozinheira do Café Anglais.

-Todos nós vamos-nos lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette - Martine acrescenta, como se não a tivesse ouvido.

Babette lhes diz que não vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.

- Mas e os dez mil francos? as irmãs perguntam.

Então Babette deixa cair a bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara, na comida que haviam acabado de devorar.

- Não se assustem -ela lhes diz.

- É isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.















2 comentários:

Rita Celina disse...

Norilha querida! Como sempre, amei tua postagem da Festa de Babette e fiquei com vontade de ver este filme pela 4ª vez. Soubeste resumir, com a maior exatidão , tudo o que acontece durante o decorrer da Festa de Babette. Quem não assistiu ainda, deve fazê-lo em seguida, pois vale a pena, principalmente depois de terem lido teu blog.Beijos.Rita

Love Your Homes disse...

Bravo Ana querida. What a lovely post, this film is so telling us, it is all about the food. Precious story, enchanting caracters and divine surroundings.
Obrigada e até a próxima vez, abraco Ingela