sábado, 20 de dezembro de 2008

A beleza do Natal


Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal.

É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta:
10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito.
E não parece absurdo imaginar que,
pelo desenvolvimento da linha,
e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal,
abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas.
Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente,
de manhã à noite, de uma rua a outra,
de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas.
Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade.
Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile.

E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma.

Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso.

A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som.

Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram;
equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie.

Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo.

Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas.

Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.
Carlos Drummond de Andrade
A todos os meus amigos virtuais e aos não virtuais,
aos meus leitores fiéis,
aos meus seguidores,
desejo um muito Feliz Natal!
Com carinho,
Ana

12 comentários:

Luiz Borges disse...

Muito bonita a mensagem de Natal. Os bonecos de neve estão ótimos também! Como sempre o blog mais chic da Internet.
Bj.
Filósofo de Pijama e gorro de Natal

Ivo e Fátima disse...

Aninha

Sonhar não custa nada. Quem sabe...

Beijos e um Feliz Natal para você e para o Gafa.

Ivo e Fátima

Cofre de Artesanías disse...

Felices Fiestas! Es nuestro deseo que esta noche de paz sea tan solo el comienzo de un año pleno de éxitos.


hermoso blog.

saludos
y vean las ofertas

Rita Celina disse...

Minha querida e inteligente norilha! Como sempre, AMEI o teu blog natalino! Natal é uma época em que há mais fé, amor e esperança nos corações. Quem dera que todos comemorassem o Natal durante o ano inteiro, esquecendo os conflitos internos e externos, procurando minimizar a pobreza de tantos povos,agradecendo sempre a Deus pela felicidade de estar vivo e pela beleza de todas as coisas!Que o Natal de vocês seja abençoado, prenunciando um Ano Novo com muitas alegrias e realizações!Beijos carinhosos de tua fã incondicional, Rita.

Maria Regina disse...

Querida afilhada e amiga Ana,
Drummond encontrou em ti sua melhor intérprete, pois consegues perceber e transmitir as nuanças da beleza da simplicidade das palavras, fazendo-as, afinal, falarem por si próprias. Agradeço as felicitações e a oportunidade de vislumbrar este novo mundo sugerido. Desejo que esse sonho se torne realidade, tendo este Natal como marco de início: terra, ar, água e alma, com muito amor e paz sem fim. Beijos da tua sempre admiradora Maria Regina

Anônimo disse...

Oi Anaaaa, ADOREI seu bloguinho, lindo como sempre HAHA, aaaaah. e mocinhaaaa, estou esperando aquele LINDO CHINELO como presente, e rápido por favor BEEIJOS Carol

Anônimo disse...

Lindo, Ana! Muita sensibilidade...
Bjos
Vivi

Rosiane disse...

Oi Ana!!!
Adorei seu blog, ao invés de mandar por e-mail estou deixando aqui a minha admiração...

Um GRANDE beijo e Feliz Natal também...

Rosi

Anônimo disse...

Ana B.,
Parabéns pelo Drummond, pela sensibilidade, pelo cuidado com seus amigos e admiradores.
Feliz Natal!!!!
Ana H.

Anônimo disse...

Oi Aninha!
Adorei o seu blog, ele é lindoooo!
Obrigada pelas palavras de carinho e também quero te desejar um Natal e Ano Novo muito iluminado, com muita saúde, paz, amor, alegrias e energias renovadas.
Te adoro!
Muitos e muitos beijos.

Silvana

Anônimo disse...

Lindo Aninha!

Feliz Natal e um ano novo repleto de coisas boas.
Te adoro!
Seu primo
Victor

Anônimo disse...

Anna,



Muito bonita a mensagem.

Adorei o seu blog.

Também lhe desejo, Anna, um Feliz Natal e um Ano de 2009 com muita saúde, paz, amor e cheio de realizações pessoas.



Um beijão,

DORIS.